“Uma exposição muito enriquecedora para a nossa história, e que conta a realidade como de fato aconteceu. Saio daqui muito feliz por ter buscado esse conhecimento.”
Essas palavras são do presidente da Comunidade Quilombola dos Arturos, Everton Eustáquio da Silva, sobre a experiência vivida durante a visita, nesta quinta-feira (5/11), à exposição documental “Trilhas da Liberdade: Tecnologias Negras de Emancipação no Judiciário”, promovida pela Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (Ejef) na Galeria de Arte do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
Ele estava acompanhado da Rainha da Estrela-Guia da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, Maria Goreth Costa Heredia Luz, e da secretária da comunidade, Pamela Izabela Cardoso, durante a visita guiada à mostra no Edifício-Sede da Corte mineira.
Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Minas Gerais e da cidade de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde está localizada, a Comunidade Quilombola dos Arturos começa sua história em Minas Gerais ainda no século XIX, fundada por Camillo Silvério da Silva, que chegou ao Brasil em um navio negreiro vindo de Angola para ser escravizado.
A comunidade, formada por descendentes de Camillo Silvério, mantém viva a religiosidade e a herança africana, preservando tradições como culinária típica, a dança do Batuque, a Festa do João do Mato da Capina, a Folia de Reis, a celebração do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e o Congado.
Na exposição “Trilhas da Liberdade”, os quilombolas foram recebidos pela diretora executiva de Gestão da Informação Documental (Dirged) da Ejef, Simone Meireles, e receberam explicações por historiadores que atuaram na montagem da mostra.
A exposição apresenta um eixo temático da luta pela libertação do sistema escravista e reúne documentos sistematizados na obra publicada pela Coordenação de Arquivo Permanente (Coarpe) do TJMG, intitulada "Guia de Fontes Documentais do Arquivo Permanente do TJMG: História Negra – escravidão, liberdades, resistências e violências", que foi contemplada com o 1º lugar no Prêmio CNJ Memória do Poder Judiciário (2026), na categoria "Patrimônio Arquivístico".
Os documentos históricos, nos quais estão incluídas ações de liberdade, cartas de alforria e processos cíveis, revelam como a população negra usou a Justiça para lutar por seus direitos.
Ao falar sobre a importância histórica da mostra e da visita dos representantes da Comunidade Quilombola dos Arturos, a diretora executiva Simone Meireles ressaltou que a exposição traz luz à “ação da população escravizada, que sempre foi tão discriminada, inclusive intelectualmente, provando que essas pessoas sabiam acionar os órgãos públicos competentes para reclamar em relação à própria liberdade, maus-tratos e descumprimento das leis abolicionistas que estavam em surgimento naquele período”:
“Esses documentos encontrados no Arquivo Permanente trazem a história contada de fato por aquelas pessoas escravizadas. Então, entender este contexto e perceber um novo viés, uma nova vertente, a história sendo contada pelo outro lado que estava silenciado, é extremamente importante para quebrar paradigmas e rever preconceitos.”
Outras visitas
Ainda nesta quinta-feira, a mostra também recebeu a visita de representantes da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). Estiveram presentes integrantes do Centro de Gestão Documental (CGDoco): o capitão PM Gustavo Augusto Viegas; os tenentes PM Paulo Silas e Paulo Figueiredo; a sargento PM Janine; e as arquivistas Ana Cristina Matias, Lucimary Cruz Cândido de Amorim e Luísa de Castro Chagas.
O tenente PM Paulo Silas destacou o trabalho de pesquisa para a realização da exposição, que apresenta a história daqueles que enfrentaram o período da escravidão:
“O que ficou de marcante é que essa exposição demonstra que os escravos não alcançaram a liberdade de uma maneira passiva, mas foram protagonistas dessa busca.”
A visita guiada também foi acompanhada pelo desembargador da 15ª Câmara Cível do TJMG Marco Antonio Borges, que citou o valor documental das obras:
“Podemos ver que o Tribunal está fazendo um levantamento histórico e uma homenagem à liberdade. Está honrando e fazendo a sua parte. E fico muito feliz por essa iniciativa.”
Na quarta-feira (4/11), a “Trilhas da Liberdade: Tecnologias Negras de Emancipação no Judiciário” recebeu visita da deputada estadual mineira Andréia de Jesus, que foi acompanhada pela diretora executiva da Dirged, Simone Meireles, e por historiadoras da Ejef.
A parlamentar afirmou que o TJMG está dando visibilidade a um tema tão importante e serve de “exemplo para outros tribunais”:
“A gente precisa de um Brasil preparado para preservar a memória, para preservar documentos históricos. E esses documentos precisam ganhar o mundo e ser colocados à disposição de outros pesquisadores. É preciso corrigir essa fissura que a escravidão deixou na história do Brasil. Os documentos precisam estar com a qualidade e com os tradutores, tal como o Tribunal está fazendo aqui.”
O conceito
A mostra, que tem como propósito abrir as celebrações do mês em que é comemorado o Dia da Consciência Negra (20/11), tem o objetivo de promover o letramento social e o direito de acesso à memória e à conscientização histórica e de combate às desigualdades raciais e ao racismo institucional, apresentando ao público processos judiciais salvaguardados pelo Arquivo Permanente do Tribunal que revelam o protagonismo e as estratégias jurídicas de resistência da população negra durante o período escravista.
As visitas guiadas contaram com a presença da historiadora Julia Pazzini Scarpelli de Aguiar, do historiador Igor Giovanni Murta de Sousa, da arquivista Bruna Michele e do conservador-restaurador Maycon Felipe Silva Amaral.
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