Foto: Thiago Andrade/UFJF
Uma tecnologia baseada em inteligência artificial, desenvolvida com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), passou a ser utilizada pela rede municipal de saúde do Recife para auxiliar na identificação de possíveis casos de violência contra mulheres. A ferramenta recebeu o nome de ClarIA e foi apresentada nesta semana na capital pernambucana.
A iniciativa integra ações do mês dedicado às mulheres. Além disso, busca ampliar a capacidade de prevenção e acolhimento dentro dos serviços da Atenção Básica da cidade.
Sistema analisa prontuários e emite alertas
O desenvolvimento da ferramenta ocorreu no laboratório FrameNet Brasil, sediado na UFJF. O projeto surgiu a partir de uma parceria entre a Prefeitura do Recife e a organização internacional de saúde pública Vital Strategies.
O sistema utiliza inteligência artificial para analisar informações registradas em prontuários eletrônicos. Dessa forma, a tecnologia consegue identificar indícios que podem indicar situações de violência. Quando encontra sinais relevantes, a ferramenta gera alertas direcionados a médicos e enfermeiros.
Durante o desenvolvimento do projeto, a tecnologia analisou aproximadamente 8,9 milhões de prontuários médicos. Esses registros correspondem ao atendimento de cerca de 900 mil mulheres na rede municipal de saúde do Recife ao longo de dez anos.
Além disso, a análise reuniu dados do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan) com informações presentes nos prontuários eletrônicos. O sistema também avaliou registros escritos pelos profissionais de saúde em campos abertos.
Interpretação de textos livres nos registros médicos
Segundo o coordenador do projeto e pesquisador do FrameNet Brasil, Tiago Torrent, um dos principais diferenciais da ferramenta está na capacidade de interpretar textos livres presentes nos prontuários.
De acordo com o pesquisador, esse tipo de registro costuma apresentar abreviações, erros de ortografia e diferentes estilos de escrita. Por isso, a equipe desenvolveu um modelo capaz de compreender esse tipo de conteúdo e identificar padrões de relato relacionados à violência.
A partir dessa análise, o sistema consegue reconhecer sinais que antecedem a notificação oficial de violência. Conforme explica Torrent, a tecnologia detecta indícios cerca de 90 dias antes do primeiro registro formal.
Consequentemente, os profissionais de saúde passam a ter mais tempo para agir e oferecer proteção às mulheres atendidas.
Estrutura digital do Recife permitiu análise de dados
A escolha do Recife para a realização da iniciativa ocorreu por causa da estrutura digital da rede de saúde da cidade. Segundo Torrent, a capital possui um histórico mais longo de uso de prontuários eletrônicos na Atenção Básica.
Por esse motivo, os pesquisadores encontraram um grande volume de registros disponíveis para análise. Esse histórico permitiu observar padrões ao longo do tempo.
Durante o estudo, a equipe analisou milhares de registros produzidos entre 2016 e 2025. Assim, os pesquisadores conseguiram compreender melhor como mulheres vítimas de violência interagem com o sistema de saúde.
Tecnologia identifica padrões nos relatos das vítimas
A ferramenta ClarIA utiliza análise semântica para transformar relatos presentes nos prontuários em informações estruturadas. Com isso, os sistemas computacionais conseguem interpretar os dados e identificar padrões relacionados à violência.
Segundo Torrent, o modelo desenvolvido na UFJF resulta de anos de pesquisa na área de linguística computacional. A proposta do FrameNet Brasil consiste em modelar a forma como as pessoas compreendem textos escritos.
Essa abordagem permite interpretar registros reais produzidos no cotidiano dos serviços de saúde, que muitas vezes apresentam informações incompletas ou diferentes formas de expressão.
Dados revelam comportamento das vítimas antes da notificação
A análise dos prontuários também revelou padrões importantes sobre o comportamento das vítimas antes da notificação oficial de violência.
Em muitos casos, as mulheres já relatam discussões, conflitos ou episódios de agressão durante consultas realizadas semanas ou meses antes de qualquer registro formal.
Além disso, os dados indicam que situações de violência interferem diretamente no acompanhamento de outras condições de saúde. Nos prontuários das vítimas, doenças crônicas comuns na população brasileira, como hipertensão e diabetes, aparecem com menor frequência.
Segundo o pesquisador, isso não significa que essas doenças não existam. Na prática, a violência acaba ocupando o espaço da consulta médica, enquanto outras condições deixam de receber acompanhamento.
Projeto-piloto capacitou profissionais da saúde
Antes da ampliação da estratégia na Atenção Básica, três Unidades de Saúde da Família participaram do projeto-piloto no Distrito Sanitário I, em Recife: Santo Amaro III, Santa Terezinha e Pilar.
Nessas unidades, 31 profissionais receberam capacitação para utilizar a ferramenta e aprimorar o atendimento às mulheres em situação de violência.
Na próxima etapa da iniciativa, outras 21 unidades devem integrar o projeto. Com isso, o número de profissionais capacitados chegará a 497, incluindo médicos, enfermeiros, dentistas, agentes comunitários de saúde e equipes multiprofissionais.
Pesquisa acadêmica aplicada às políticas públicas
Para Torrent, a iniciativa demonstra como pesquisas acadêmicas podem contribuir para políticas públicas e para o enfrentamento de problemas sociais complexos.
Segundo ele, quando os registros presentes nos prontuários se transformam em dados analisáveis, torna-se possível identificar padrões e orientar ações mais eficazes na área da saúde pública.
Episódio do IdPesquisa apresentará o projeto
A Diretoria de Imagem da UFJF também divulgará em breve um novo episódio do IdPesquisa com participação do professor Tiago Torrent.
Na ocasião, ele apresentará o trabalho do FrameNet Brasil e explicará como a ferramenta baseada em inteligência artificial auxilia a Secretaria de Saúde do Recife na identificação de possíveis casos de violência contra mulheres.