A violência contra trabalhadores das unidades de saúde em Juiz de Fora tem despertado preocupação crescente. Entre janeiro e setembro de 2024, os casos registrados saltaram de 281, no mesmo período de 2023, para 359, representando um aumento de 27,8%.
O levantamento, realizado pelo Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais, revela um cenário alarmante para os profissionais que lidam diariamente com a sobrecarga dos serviços e a insatisfação dos usuários.
Furtos lideram os acidentes, com 76 ocorrências, seguidos por infrações contra a pessoa (57 casos) e ameaças (52). Agressões físicas, danos ao patrimônio e lesões corporais também aparecem entre os crimes mais relatados.
Um dos episódios mais marcantes ocorreu em março, na UBS da Vila Esperança, onde uma mulher, insatisfeita com a demora no atendimento, quebrou vidros com um guarda-chuva, ameaçou funcionários e forçou a médica a se trancar no banheiro.

Segundo Anderson Luís Gonçalves, diretor de Saúde do Sinserpu, a ampliação do horário de funcionamento das UBSs — que agora operam até 19h e abrem aos sábados — gerou uma interpretação equivocada por parte de alguns usuários, que passaram a tratar as unidades como prontos-socorros. Essa confusão, somada ao déficit de servidores, tem levado à superlotação e ao aumento das tensões.
“Temos enfermeiros na recepção e técnicos de enfermagem trabalhando na farmácia, porque não há pessoal suficiente. Isso gera atrasos e irritação nos pacientes, culminando em atos de violência”, explica Gonçalves.
A médica agredida na UBS, cujo relato ilustra a gravidade do problema, descreveu as consequências psicológicas do ataque: “Fiquei com estresse pós-traumático, e cada barulho ou grito me fazia reviver a situação”. Ela também criticou a falta de apoio do poder público, que, segundo ela, normaliza esses episódios.
O Sinserpu destaca que o efetivo da Guarda Municipal é insuficiente para proteger os servidores. Gonçalves cobra a realização de concursos para contratar recepcionistas, técnicos e porteiros, além de campanhas de conscientização para que a população entenda os limites das UBSs.
“Sem medidas urgentes, corremos o risco de ver tragédias ainda maiores, com perdas irreparáveis entre os trabalhadores que estão na linha de frente da saúde pública”, alerta o diretor.
A violência não se restringe a Juiz de Fora. Na 4ª Região Integrada de Segurança Pública (RISP), que abrange 86 municípios, as ocorrências também subiram 22,94% no mesmo período. Apesar disso, o crescimento no estado foi bem menor, com alta de apenas 1,98%.